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imaginemos um palhaço triste. não muito mau, não muito talentoso. competente ao ponto de se gostar dele, por vezes. o palhaço
maquilha-se todas as noites e insere as vestes da profissão duvidosa e entretém a plateia. uns riem-se, outros indignam-se, outros cospem
outros aplaudem. o palhaço foi perdendo amigos, porque foi-se esquecendo com o tempo de se despir da tinta noturna, que passou
a manchar a almofada sem falhar nenhum descanso. tem por hábito beber bagaço em balcões sujos e guardar notícias importantes ou poemas
inúteis no bolso, sempre dobrados em quatro. fá-lo porque leu em algum sítio que a imagem de guardar um pedaço importante de beleza ou de mundo
num tecido ordinário era uma metáfora bela. é preciso dizer que o vadio não dorme num quarto, mas numa tenda anexa ao átrio dos espetáculos
por comodidade. é uma tenda quase vazia, de decoração minimalista, para a brisa negra de sempre circular melhor por entre as poucas pernas do mobiliário
e as suas. em cima de uma cadeira velha, ele deposita tudo o que acha conveniente numa confusão e banalidade pessoal. é para isso que servem as cadeiras
das tendas ou dos quartos. sabe que os seus colegas de profissão têm mais brio na arrumação e apresentação do seu espaço pessoal, mas não esperando ele 
visitas, e se as houver, sabendo que ninguém compreenderá a lixeira, descuida-se enquanto sorri. em suma, é um palhaço que não se sabe rir de si mesmo,
mas que ri-se do Mundo,

«Uma pergunta numa cabeça. 
— Como uma coroa de espinhos: 
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —»