Uma linha perolada corria-lhe pela face quando estendeu os dedos esguios, transparentes, para o topo do piano vertical e, de entre dois candelabros, recolheu a velha reprodução do Livro de Kells. Ezra, Isahia e Abraham sentaram-se ao seu redor e foram-lhe descrevendo as iluminuras dos folios, as expressões dos evangelistas e as cores de figuras sagradas bichos e anjos: interrompendo-se, tocando-se nas mãos, folheando ávidos o caleidoscópio das páginas, brincando com o Livro e afagando o rosto de Candela. Aqui a tinta preta, ali amarelo, vermelho, rosa e violeta: pigmentos de ouro, sulfato de arsénio, pó de malaquite e lápis-lazúli afegão de onde nasciam folio a folio espirais e zoomorfos (...) Enquanto gatos e netos a adoravam, esticou-se para uma das setenta e sete gavetinhas do contador e abriu duas; da primeira recolheu três pérolas (preciosas miudezas que em tempos Ruskin achara na praia à beira do sambuq) e escondeu uma por uma debaixo da língua de cada neto. Todos se beijaram nas testas e os rapazes saíram para a luz da tarde. Foi então que da outra gaveta se serviu das três ampolas de morfina e recostou naquele benfazejo e salvífico sono já quase eterno. Lá fora um cúmulo azul petróleo e azeviche toldou o Sol e os vitrais da janela fecharam-se de cores num chumbo liquefeito, invadindo o espaço interior de uma trémula sombra de obsidiana.


Alexandre Sarrazola
Smalloch

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