Mas repita-se: não se exige, claro, uma arquitectura moralista. A ética de uma casa—de um ponto de vista da arquitectura—não depende dos actos que os seus utilizadores executam lá dentro—mas sim, de um modo objectivo e nada vago, das dimensões, das medidas, distâncias entre paredes, disposição de compartimentos e funções. 
Dirão: porquê colocar mais peso (responsabilidade moral e ética) num ofício que não é mais do que a manipulação do Peso e do Leve? (considerando-se aqui o Leve como o oposto do Peso, como se aquele fosse uma característica com as suas unidades próprias, e não apenas como um negativo, como uma ausência de peso. Leveza não é ausência de peso, mas, sim, presença de leveza. Unidades de Leveza? Precisamos de pensar nelas, encontrar-lhes um bom nome.) 
Mas qualquer coisa, escrevia, tem uma ética: como pensar a arquitectura (ocupação expressiva do espaço) fora dessa responsabilidade? 
Um exemplo que me agrada particularmente: Adorno no livro minima moralia fala de umas pantufas Schlapen. Escreve Adorno: 

Em várias coisas há gestos registados e, portanto, modos de comportamento. As pantufas—«Schlappen», slippers—estão concebidas para meter os pés sem a ajuda da mão. São monumentos do ódio contra o vergar-se. 

Se até umas pantufas domésticas, com a sua forma e o seu modo de utilização, impõem uma filosofia de vida e, portanto, uma moral, como retirar deste combate a arquitectura? Há edifícios que são monumentos ao acto de vergar-se, edifícios que promovem—pela sua forma e pelo seu modo de utilização—um conjunto de actos servis e de sabujice—e outros, pelo contrário, que instalam o instinto do orgulho e da individualidade orgulhosa e criativa nos seus utilizadores. Tal observação parece evidente. 
Desde as pantufas, à casa, desde a roupa às palavras, tudo julga e tudo é julgado: o mundo é uma unidade moral. Ninguém e nada está de fora.


Gonçalo M. Tavares

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