Combinámos: a minha mãe pagava a viagem, já que o principal interesse era dela, a Manuela guiava o carro, eu limitava-me a ir de cu tremido e Sevilha, afinal, não era assim tão longe. Objectivo, ir visitar uma antiga professora da minha mãe ao convento andaluz onde terminava os seus dias. Sempre a minha mãe falava dessa professora da sua juventude (no colégio de freiras de Vila Viçosa) com admiração e muita saudade. Às vezes, não muitas vezes, escreviam-se, telefonavam-se. Entretanto decorrera mais de meio século. A minha mãe em Oeiras, a freira espanhola em Sevilha.
Chegados ao nosso destino, foi o convento a primeira casa a que batemos à porta. Logo que se avistaram uma à outra correram para se abraçar e assim permaneceram largo tempo. A freira era efusiva, alegre e faladora, apesar de já rondar os noventa. Muito espanhola, também. Enquanto bebíamos chá e comíamos deliciosos bolinhos conventuais, eu sentia-me transportando a um outro tempo, não sei bem qual. Conhecedora provável do meu ateísmo, não fez qualquer referência ao assunto e foi encantadora com todos. Durante o tempo do lanche e o do encontro, a minha mãe e a freira olhavam-se e davam-se as mãos, não disfarçando a ternura e a comoção que sentiam.
À despedida a freira mantém-se calma e jovial, mas a minha mãe não consegue reter as lágrimas.
- Mariana, ahora puedes venir más vezes a visitarme, Manuela tiene coche.
- Madre, ahora solo nos veremos en el cielo.
A freira está no alto das escadas, nós já estamos a abrir a porta que dá para a rua. Torna a pedir:
- Mariana, ven más veces...
A minha mãe, já sem se voltar para trás:
- En el cielo, madre, en el cielo.
E assim foi, ou terá sido.


Rui Caeiro
Diálogos Marados

Sem comentários:

Enviar um comentário