arredado de uma verdadeira claridade

Mudou para uma janela que dominava o rio muito lá em baixo, que efervescia como um refrigerante; onde fervia um milhão de sequins. Houve uma aberta, deixou de chover, embora se pudessem ver ainda grossas gotas espaçadas, a cair; o rio corria a toda a velocidade por baixo do céu pesado. Ao observar aquilo, sentiu-se invadido por uma agradável sensação de liberdade, sensação de já estar lá fora, com liberdade de correr ao vento, se quisesse, com liberdade de fugir para longe do hospital, para onde lhe desse. As grades, porém, continuavam todas nos lugares de sempre, parecidas com as grades do próprio espírito; levantadas, aliás, pela mesma razão que o levava a estar ali. Não conseguia ainda livrar-se delas, só lá fora poderia fazê-lo. Deixava o pensamento correr com o rio que a chuva empolara, mas não conseguia libertá-lo concentrado, assim, sempre, naquele posto de observação que o hospital era. Embora de uma forma obscura, reconheceu a maior razão em tudo aquilo que a respeito de Garry dissera ao médico; o miúdo e o Sr. Kalowsky tinham-se transformado numa parte de si próprio, eram fragmentos do sombrio significado que o seu destino tinha. Comprimiu o rosto de encontro às grades... à fuir, lá-bas!
Onde estariam, naquela noite, os digníssimos navios a caminho de todos os lugares do mundo?, pensou ele. Dir-se-ia que ultimamente passavam menos. Só navios de pesadelo frequentavam o rio. E olhando o estranho tráfico reparou que East River delirava tanto, era tão visitado por espíritos, que as mentes ali, muito acima dele, ruminavam ideias negras; rio doido de grotescos navios sem mastros, barcatas chatas tão silenciosas como cobras de água no seu deslizar, rio de cacilheiros construídos como tanques de chaminés oblíquas que tivessem sido espetadas em forquilhas de brancal, ou metades de barco fantásticas que absurdamente ultrapassassem a superfície da água, com hélices à mostra que as obrigavam a dar saltos dignos de um rabo de atum, com o solitário mastro fora do alinhamento. Todo este mundo ribeirinho era feito de coisas por terminar, de funcionamento degradado, e tal como a lancha de Garry verdadeira imagem daquelas almas enfermas  e cheias de tormento. Sim, dir-se-ia feito de factores complementares que tinham desaparecido por completo dessas almas! Tremia de angústia na penumbra, com a sensação de estar arredado de uma verdadeira claridade; como costumava tremer, também, nos pesadelos onde uma tartaruga se arrastava quase morta, em busca da sua carapaça, e arranhava o vazio com desesperadas unhas, onde pássaros exaustos e de uma só asa atravessavam uma lua demente e jamais batida pelo sol...
Estremeceu, como se lhe tivessem tocado no ombro. Não era ninguém; embora mais longe, no limiar da porta aberta no gabinete, o Dr. Claggart olhasse para ele imóvel, com a mão na maçaneta, uma expressão no rosto que muito claramente lhe dizia: «Vá, tens de voltar para a tua sala.» E voltou.


Malcolm Lowry
Lunar Caustic


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