o irmão

Deverei falar no meu irmão. Carlos José, para quem imaginei um título e fixei uma essência. O título seria «o coração brilhante: história do rei dos cigarros», e a essência é simples como o segredo do meu irmão com a vida. Incapaz de mentir ele cala-se ou vai-se embora, dentro da jaula em que vive, para um canto do andar superior, onde murmura, murmura, até resolver. Depois desce a pedir um cigarro, seu talismã da sobrevivência. Vive do que lhe dão, entre emoções, e bate frequentemente as palmas, para celebrar o instante de entusiasmar-se. Entusiasma-se por inspiração: dum lado para o outro da casa, pelo calor da braseira se é de inverno, ou nos raios do sol se há sol na porta entreaberta dum lado para o outro ele anda e celebra. Prisioneiro de uma vida que não busca entender, cumpre-lhe todos os tempos fortes com o seu gesto de bater as palmas, ou de soltar uma garfalhada a propósito. Se a seguir fala, depois de rir-se ou de percutir, só aparentemente ele perde a sobriedade. As palavras são de bocados de frases antigas, já usadas e que de facto nunca viveriam sem o consenso de que ele é o idólatra consumidor. São bocados de jornal, ditos públicos, réplicas memoráveis nos anais de família, sínteses genealógicas sem extensão nem esforço, provérbios desfigurados, séries do mundano desdramatizado, anátemas que protagoniza em vão, etc. Legendas da compreensão fulgurante, a do bater palmas ou da gargalhada, legendas paralelísticas discontínuas.


Álvaro Lapa
raso como o chão

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