Na maioria dos dias a anedota sou eu. Como os doidos nas ruas que tão diferentes entre si acabam todos por convergir na caricatura da loucura para a gente sã também eu, jovem com licenciatura num bolso e cigarros por enrolar no outro, sou a representação ideal de um tipo de pessoas a que os amigos chamam primeiro de "diferente", depois "personagem", depois "esfarrapado", depois meio isto e meio aquilo? Devia começar a circular um papelinho quadrado (a ideia não é nova), não muito grande para não haver alongamentos desnecessários perguntando sinceramente "Acham que estes pés, esta cara, esta roupa sempre repetida, esta tosse, esta procura de casa vitalícia, estes silêncios inoportunos, este défice no que toca a contar dinheiro, faz parte de um plano íntimo e intransmissível da minha parte?" É que de condescendência saloia está um gajo farto! 

Passar fome (apesar dos pais não acreditarem dada a quantia imensa de dinheiro não enviado em certos meses, mas que sabem os pais da fome dos filhos...) ou passar a noite sentado nas escadas, porque acabámos num enredo interminável de ofensas é bonito para páginas alheias cheias de luz e trevas em mil e uma metáforas, mas não me dizem nada. Por reconhecimento mútuo, estão a ver? E sim, amanhã ir ao trabalhinho, parar para almoçar com os pombos, ouvir umas piadas inteligentes, receber convites para declamações e centena e meia de malabarismos exóticos, e planos de viagens futuras de que não pedimos detalhes, pois claro. Mil cabeças de crianças e setecentos braços de meninas virgens depois (mais as batalhas e os poemas confessionais, pois claro) continuo a gostar de beber demais e de tudo que me faça esquecer um pouco os vários motivos de ter começado este rascunho. E sim, no papelinho quadrado que não vos entregarei digam-me lá o que acham, porque eu já estou a ficar com as vestes gastas tantos são os ensaios aos vossos olhos.

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