Amanhã abandonarei para sempre esta casa já convertida, para mim, num lugar estranho. Agora não há luz eléctrica e, de dentro de uma obscura desolação, vão surgindo, no círculo luminoso da minha lanterna, os objectos abandonados que a habitam: um tabuleiro de xadrez, poltronas de veludo, cantos vazios, quadros, lâmpadas apagadas, postigos fechados, paredes sem estuque... São objectos indiferentes que já não pertencem a nenhuma vida. Toda a casa surge envolta no mesmo sopro de morte que deixaste. E, neste cenário espectral da nossa vida em comum, sobreviveu o teu silêncio e também, para minha desgraça, aquela separação derradeira entre tu e eu que, com a tua morte, se tornou invencível e eterna.


Adelaida García Morales
em 'o sul'

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