a minha cabeça no estojo da viola

O que tu, nas noites longas em que dormes
deitada na nuvem da minha insónia,
não podes ver,
o que não podes tocar com a tua anca ardente saindo
do edredão como um seixo do rio,
o que se infiltra sob o incêndio da tua respiração,
subindo dos subúrbios pelas calhas dos eléctricos, rangendo
como nau enferrujada nas montanhas marinhas,
é pura e simplesmente o ar que respiramos,
este melaço rançoso, este melaço de utopia
a que se habituou o nosso estômago autofágico...

Mas nós, quando viveremos?

A minha língua chega a temer o chumbo dos meus dentes,
contorna-o, cuidadosa, até o aceitar...
Mas nós, quando?
Nos aquários do meu sono acumula-se o lixo do sonho colectivo,
a lápis, diariamente, provocam-se grandes aluimentos de terreno,
imagino-me diante dos raros amigos como numa névoa compacta,
falo hortaliça estragada, tenho os tiques
de quem aceita de bom grado as instituições,
ganhei pés de chumbo com que tento fugir...

Numa fila de espelhos curvos por onde avança
até mim o meu filho,
distingo prolongada a bofetada
que, impiedosa, me há-de estalar no rosto
não muito antes de acabado o milénio.

Vêm então enormes livros de balanço
com multiplicações e subtracções, com orgulhos
de país pequenino a jogar na lotaria
as suas questões graves, mas também ninharias,
e pela encosta do poente vão subindo
guarda-livros tacanhos, a colarem
os factos às palavras,
cada coisa ao seu nome,
e de ti para mim, o nosso amor a desviar
os campos magnéticos;
e o adiar, o adiar, o adiar
puxando os suspensórios
às calças da esperança!

O que tu, na tempestade onde dormes,
e eu através de ti, e através de mim o nosso filho
e até ao fim a morte cúbica, presa com tal
rigor ao despertador dos deuses,
não vemos
é o porquê da inimizade que se abateu sobre a nossa única vida...

O que me traz
o vento de Fevereiro das planícies transilvanas
lembra uma neve com anestésico...
A minha língua teme as minhas palavras,
sonho-me algures em mares de coral,
peixe-palhaço
escondido nas actíneas venenosas...

De madrugada abro a janela, volto a ser objecto da história
envolta em nuvem de perfume irónico passa na rua uma mulher
leva fechada no estojo da viola a minha cabeça.
A morte espreita por cima do meu ombro a folha de papel,
passando-me, de vez em quando, o areeiro
com areia finíssima
para polvilhar as palavras. Mata-borrão...


Dinu Flămând
haverá vida antes da morte?

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