«cântico negro»

Cago na juventude e na contestação
e também me cago em Jean-Luc Godard.
Minha alma é um gabinete secreto
e murado à prova de som
e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes
nem uma só gravura de Lichtenstein
ou Warhol. Nas prateleiras
entre livros bafientos e descoloridos
não encontrareis decerto os nomes
de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos
volumes  de qualquer filósofo
maldito, vários poetas graves
e solenes, recrutados entre chineses
do período T'ang, isabelinos,
arcaicos, renascentistas, protonotários
– esses abundam. De pop apenas
o saltar da rolha na garrafa
de verdasco. Porque eu teimo,
recuso e não alinho. Sou só.
Não parcialmente, mas rigorosamente
só, anomalia desértica em plena leiva.
Não entro na forma, não acerto o passo,
não submeto a dureza agreste do que escrevo
ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.
De alguns. De poucos. De um só se necessário
for. Tenho esperança porém; um dia
compreendereis o significado profundo da minha
originalidade: I am really the Underground.


Rui Knopfli
uso particular

Nota: talvez seja do interesse de quem é um leitor sério e conhecedor destes esforços editoriais tão pequenos e persistentes, comprar um dos 150 exemplares desta edição. Para esgotar ou reimprimir.
Ps: aqui, podem ver o modus operandi habitual deste meio. O Eduardo Pitta, não refere no seu blog, propositadamente, a edição deste livro (Uso Particular, do lado esquerdo, Coimbra), mas avisa com prontidão (!) que haverá, em breve, uma antologia de poemas do Knopfli na Tinta-da-China. Tirem as vossas conclusões.

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