As vozes dos galos madrugadores no silêncio da luz nascente incutem algum ânimo nos olhos tristes do mocito. Levanta-se do escano, empurra a porta empenada e caminha a pés descalços pelas ervagens altas do quintal empapado de chuva, com o grande capote arrastando aos calcanhares. A bengala encastoada de prata e o saquitel dos ossos lá estão junto do tanque, nas ervas, sob os ramos da macieira. Dum ramo leve voam dois pardais, um após outro, e o ramo fica a oscilar e a desprender gotas retidas. O mocito vê os pardais sumirem-se rapidamente no céu muito limpo e calmo, nos montes para além do rio. Atrás desses montes vigorosos desdobram-se montes menos nítidos e atrás destes outros ainda, finíssimos, quase apagados, neles se vendo indistintamente, a coroar a lonjura mais alta, os contornos minúsculos do santuário do Sameiro. Os olhos tristes do mocito demoram-se nesses longínquos e vagos contornos. Mas, como se de súbito recordasse algo insólito vislumbrado de um pouco antes, torna à cozinha, com o grande capote arrastando aos calcanhares nas ervas molhadas. Acerca-se do escano. E, sufocando um soluço, com uma lágrima de pura dor a correr pela face magra, estende a mão para a pedra negra, entre as cinzas da lareira e a chaminé, onde estão a navalha de barba e o pincel de ensaboar deixados ali na véspera - «bagagem de homem».


Altino do Tojal
o oráculo de jamais 

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