Minha voz não é apenas a que me sai dos lábios
ou da língua que gira e salta sobre os dentes,
a que qualquer mordaça tenta emudecer,
a voz sem peso, a voz inerte;
minha voz não é só ginástica de músculos,
contracções e expansões de um sistema confuso
ensinado e exposto sem vergonha e correcto
em mapas anatómicos.
Minha voz rebenta-se nas rochas das palavras
que fazem o poema e o poema grita como o mar
e fala como os homens e tem pausas
como a voz das crianças que iniciam
os primeiros contactos com o reino
misterioso e salgado das palavras.
Minha voz é o braço que sustenta o poema,
a boca que saiu do universo de um beijo,
os lábios que conservam o gosto de terra
o gosto da pólvora de uma guerra diária.



António Rebordão Navarro
a condição reflexa // poemas (1952-1982)

Sem comentários:

Enviar um comentário