Pegas-me na mão
e a meio dum cigarro
dizes-me que a ferida da operação da hérnia
não acaba de fechar por falta de plaquetas no sangue,
que o açúcar disparou
e a tensão está descontrolada
disposta a lixar-te o coração a qualquer instante,
e há também o fígado, os pés, os pulmões...
e apesar de tudo
brilha-te nos olhos
a estranha luz dos rebeldes.

Dizes-me que aqui quase não te resta ninguém,
que talvez partas para o sul, com os filhos,
definitivamente.

Dizes-me que a Espanha é apenas uma caverna
com quarenta milhões de cadáveres.

Dizes-me que andas a passear por Picadilly
de gabardina
e tens um carrinho vermelho no bolso
para os teus filhos.

Dizes-me que no meio da escassez e das sombras
decidiste casar pela Igreja
com uma comunista.

Dizes-me que é domingo
e homens sorridentes,
com um mundo novo no coração,
agitam-se por dentro de macacos azuis
e marcham para o Alcázar.

Dizes-me que estás a brincar com metralha
no último buraco de obús
no Parque Oeste
na frente de Madrid.

Dizes-me que és uma criança,
mas eu
vejo só
um homem
a morrer.


Antonio Orihuela
daqui

Sem comentários:

Enviar um comentário