[transcrevo este texto de José Pacheco Pereira, porque parece-me um tutorial para totós de iniciação à reflexão - assunto urgente]


Coloquem-se a 20 anos de distância, por volta do início do século, um átomo no curso da história, e vejam bem se era possível imaginar alguma destas coisas:



1. José Sócrates, antigo primeiro-ministro português, está acusado de mais de 30 crimes. Mesmo que sejam provados dez dos 30, irá passar muitos anos na cadeia. O que é que pensava a Pátria dele? Elegeu-o para primeiro-ministro duas vezes e condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

2. Ricardo Salgado, anteriormente conhecido como o “dono disto tudo”, está acusado de mais de 20 crimes. Mesmo que só sejam provados dez dos 20, irá passar muitos anos na cadeia. O que pensava a Pátria e o mundo dele? Tem um doutoramento honoris causa e várias condecorações nacionais e estrangeiras, muita gente tinha medo dele e ainda mais gente devia-lhe favores. Ele sabe disso.

3. Zeinal Bava, o gestor modelo, premiado com todos os prémios, apontado como exemplo à juventude tecnologicamente afoita, está acusado de cinco crimes. Mesmo que apenas metade seja provada, poderá passar vários anos na cadeia. O que pensava a Pátria dele? Tem um doutoramento honoris causa, e a Pátria condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Empresarial.

4. Henrique Granadeiro, considerado um dos grandes gestores portugueses e com uma longa carreira cívica e política, está acusado de oito crimes. Mesmo que apenas metade seja dada como provada, pode passar alguns anos na cadeia. O que pensava a Pátria dele? Bebia-lhe os vinhos e condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.

5. De Carlos Manuel Santos Silva, a Pátria não pensava nada, porque não sabia quem era. Surpresa! O homem ganhava milhões e era muito amigo de José Sócrates e nós não sabíamos.

6. Armando Vara não é exemplo para aqui chamado, porque a Pátria pensava dele o mesmo que pensa agora, mas não deixou entretanto de lhe atribuir a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

7. Portugal é governado por um governo de maioria de esquerda. Não interessa muito a fórmula, mas é uma variante de Frente Popular.

8. O PCP perdeu Almada.

9. Depois de Jerónimo de Sousa ter estabilizado o partido pós-Cunhal e pós-URSS, o PCP conhece pela primeira vez uma crise estrutural, de influência, votos, linguagem e organização. A crise não resulta da “geringonça”, bem pelo contrário. A “geringonça” adiou a crise.

10. O PSD tem menos votos em Lisboa do que o CDS.

11. Os dois maiores partidos, o PS e o PSD, são os mesmos. À sua frente estão (ou virão a estar) pessoas que era previsível terem esse futuro político já em 2000. Mas esta continuidade de forças e pessoas é mais surpreendente do que parece. Quer o que muda, quer o que não muda pode ser surpresa.

12. Existe pela primeira vez depois de 1974 uma direita extrema que não é uma extrema-direita. Os temas não são os mesmos, a linguagem não é a mesma, é elitista e, felizmente, não sabe ser populista. Pelo menos até agora. Recruta nos jovens educados, de boas famílias e maus costumes sociais.

13. O Parlamento português perdeu os seus poderes principais sem ninguém dar por ela, nem existir qualquer arremedo de protesto.

14. Portugal não tem nem política financeira própria, nem política de defesa, nem política externa. É um protectorado da União Europeia, numa altura em que a União Europeia não sabe como se proteger a si própria quanto mais os seus Estados vassalos.

15. No papel há CPLP, na realidade não há.

16. Nos suplementos culturais que ainda sobram nos jornais, há imensa cultura portuguesa. Na realidade, não há quase nada, para não dizer que não há nada. Há uma ou outra excepção nas artes de execução e performance, que dependem de personalidades, mas a criação original escasseia, para não dizer que não existe.

17. O português mais conhecido no mundo continua a ser um jogador de futebol.

18. Há cada vez mais portugueses a estudar mandarim e espanhol. Não há muitos a estudar alemão. A Pátria continua a ter apenas um olho aberto.

19. Nos EUA, o Presidente é Trump, uma personagem única. Podia encher-se esta página com qualificativos pouco amáveis, mas, até por isso, é uma boa ilustração da história como surpresa.

20. O mundo é hoje mais perigoso do que era, não porque exista um agravamento objectivo das tensões internacionais, muitas das quais já existiam há 20 anos. É muito mais perigoso porque a qualidade dos que mandam baixou significativamente. Kim Jong-un não é Kim Il-sung, nem muito menos Trump é George Bush, nem pai nem filho.

21. O Irão não é a Coreia do Norte. A Coreia do Norte é simples, difícil de lidar, mas simples. O Irão tem milhares de anos de civilização, é um país muito mais sofisticado do que se pensa, tecnologicamente mais desenvolvido, e é uma potência regional e religiosa. A Arábia Saudita sabe disso, Trump não.

22. A União Europeia não tem nenhuma direcção política. Já não há eixo franco-alemão, o Reino Unido vai sair e ninguém sabe muito bem como, e existe um caos miudinho um pouco por todo o lado.

23. Putin sabe muito bem o que quer. Isso faz uma diferença abissal de Trump, que quer apenas um espelho que nunca lhe diga que há alguém melhor do que ele.

24. A faca e o automóvel (ou o camião) são as armas preferidas do terrorismo apocalíptico.

25. O uso pelos russos da manipulação da opinião através das redes sociais e da ciberguerra é um desenvolvimento da velha técnica soviética da desinformatzia, e nesse sentido não é nem novidade nem surpresa. O que é surpresa é a dimensão do seu sucesso, como se viu nas últimas eleições nos EUA.

26. O principal reservatório do populismo moderno nos países industrializados e democráticos são as redes sociais.

27. O telefone inteligente é o device com maior capacidade de mudança na sociabilidade comum. Mudou quase tudo no espaço social das pessoas que têm dinheiro para os comprar e usar. Há uns anos pensava-se que seriam os computadores, certos aspectos da Internet, ou os robôs.

28. Há muito mais gente convencida que tem poder, quando não o tem. Esta ilusão permite formas muito eficazes de manipulação social, cultural e política.

29. Há muito mais gente ignorante, convencida que não o é, porque sabe mexer numa pequena parte das funcionalidades dos devices que usa. Aqueles que nem nessa pequena parte sabem mexer embasbacam-se com a capacidade dos outros e ajudam-nos a convencer que apenas “substituíram saberes”. Esta fractura tende a ser geracional e solidifica o crescimento da ignorância. Esta ilusão permite formas muito eficazes de manipulação social, cultural e política.

30. A História com H grande acabou, a história sem H grande está, como desde que há homens, de boa saúde e cheia de surpresas. Daqui a 20 anos nada disto estará de pé, umas vezes para melhor, mas mais provavelmente para pior. Sempre foi assim. Aproveitem enquanto dura.

queixa das almas jovens censuradas

a terra que era minha

Apenas para reencontrar Sofia Kühn,
amante de treze anos, Novalis acreditou noutro mundo;
mas eu creio em sóis, neves, árvores,
na borboleta branca sobre uma rosa vermelha,
na erva que ondula e no dia que morre,
porque só aqui num dom fugaz posso abraçar-te
finalmente, como um deus que me cria nas tuas pupilas
porque te perco, com a terra que era minha.


Jorge Gaitán Durán

na biblioteca da escola depois da guerra

Ao entrar sinto a cara a arder:
montes de livros, migalhas de cultura e de beleza
juncam o chão como espigas calcadas
após a passagem de um brutal furacão.

A poeira da guerra veio pousar nos lábios
dos homens de génio. Vozes incorruptíveis
a troar por cima do espaço e do tempo.
Mas incapazes de esmagar as botas do fantasma.

Apanho o livro pouco espesso furado
por uma bala. A chaga é horrível.
Todas as folhas estão manchadas de sangue.

Abro. Leio. Não posso reter as lágrimas
quando o título vem dançar diante dos meus olhos:
«Os sonetos sangrentos de Hviezdoslav.»


Julius Lenko
A força da carne sobre a alma não a concebeu Platão à maneira da parede diante do seu prisioneiro, mas como a lenta e irresistível força desfiguradora das ondas marinhas. 


María Zambrano
a metáfora do coração e outros escritos