Abriu o armário da loiça. Porta de pinho presa de
humidade. As suas mãos
trouxeram, uma a uma, as várias peças de
um fabulário de faiança, azul sobre puríssimo branco.

Serviu-me nessa tarde o último chá,
caiu de um rude bule
vidrado
para a chávena que trazia as armas de um dos avós;

um dos seus dedos acariciava, sentia a temperatura do
chá, enquanto passava, ao de leve, sobre a ferida
heráldica carregada de um S maiúsculo, honorada com

o arminho de um fugaz pariato.
«Coisas da pequena pátria.» E sorria de um modo
sonhador; «por cinquenta cêntimos o centro do homem funciona».


João Miguel Fernandes Jorge

Este garoto é fácil compará-lo a um campo de relâmpagos
encarcerando um touro. Através da nudez vêem-se os
astros.
É onde o poema interioriza
a sua própria hipérbole, a paisagem.

Movem-se os tigres como câmaras na areia, prontos eles
também a deflagrarem. A manhã
espanca a praia, é impossível descrevê-la sem falar
dos fios deste poema
que a cosem com a paisagem.


Luís Miguel Nava
Descubro-me um dia no mundo e reconheço-me um só direito: o de exigir do outro um comportamento humano.
Um só dever. O de não renegar a minha liberdade nas minhas escolhas.
Não quero ser vítima da astúcia de um mundo negro.
A minha vida não deve ser consagrada a fazer o balanço dos valores pretos.
Não existe mundo branco, não existe ética branca, nem inteligência branca.
Há de uma e de outra parte do mundo homens que procuram.


Frantz Fanon