humildes objectos

Sou frágil nas tuas mãos, sou papel,
e quando o mar se lança e se retira
sinto o furor calado das constelações,
a fuga das feras no jardim em chamas,
o clamor das aves se amanhece.
Então somos mais que duas figuras
que o combate conduz ao esquecimento.
Somos o mar, a terra que perdura,
o seu pulsar animal, um estertor
ditoso que nos traz a estas paredes.
Os humildes objectos sorriem-nos.


Eduardo García

A luz no lago, esconde-se atrás do muro,
Invadem o quarto os cheiros misturados das flores.
Na borda do biombo, o pó que a borboleta espalhou,
Na janela lacada, a mancha amarela da abelha.
Deixa esses papéis oficiais para os escriturários,
Há um criado para cada funcionário público honesto.
Vamos de cavalgada ouvir os poemas um do outro.
Que há de tão urgente nesses assuntos em que perdes o coração?


Li Shang-Yin

valores epidémicos

O equilíbrio que faz prevalecer o funcinamento duma sociedade tem que buscar-se num dado essencial: o bem e o mal não se identificam senão pelo que têm de epidémico. Quando a chamada aura do bem invade a área do mal, sob que pretexto for, sobretudo o de o arrancar ao seu meio natural, a peste emocional instala-se e tudo sofre uma mutação. O bem toma o carácter das coisas que eram condenáveis, e estas avançam como exércitos bem treinados à conquista dum terreno até aí interdito. Isso pressagia grandes mudanças.


Agustina Bessa-Luís 
o mistério da légua da póvoa

sur mes lèvres