no espaço I



Centro de Artes Contemporâneas da Ribeira Grande, na Ilha de São Miguel
Desenhado por João Mendes Ribeiro, Francisco Vieira de Campos e Cristina Guedes.

é

O poema é ver
com lanternas
que cor é a cor
do escuro.


Eucanaã Ferraz

o menino stanton

Do you like me?
Yes, and you?
Yes, yes.

Quando estou só
restam-me ainda os teus dez anos,
os três cavalos cegos,
os teus quinze rostos com o rosto apedrejado
e as pequenas febres gélidas sobre as folhas do milho.
Stanton. Meu filho. Stanton.
Às doze da noite o cancro saía pelos passeios
e falava com as conchas vazias dos documentos.
O vivíssimo cancro cheio de nuvens e termómetros
com a sua casta ânsia de maçã, para que não o piquem os rouxinóis.
Na casa onde não há um cancro
quebram-se as paredes brancas no delírio da astronomia
e nos estábulos mais esconsos e nas encruzilhadas dos bosques
brilha por muitos anos o fulgor da queimadura.
A minha dor sangrava pelas tardes
quando os teus olhos eram dois muros.
Quando as tuas mãos eram dois países
e o meu corpo rumor de erva.
A minha agonia em busca da sua roupa,
poeirenta, mordida pelos cães,
e tu acompanhaste-a sem vacilar
até à porta da água escura.
Ó meu Stanton, idiota e belo entre os pequenos animaizinhos,
com a tua mãe partida pelos ferreiros das aldeias,
com um irmão debaixo da ponte,
outro comido pelos formigueiros
e o cancro, sem vedações, latindo por entre as casas!
Há amas de leite que dão às crianças
rios de musgo e amargura de pé
e algumas negras sobem andares para espalhar veneno de rato.
Porque é verdade que a gente
quer lançar as pombas nas sarjetas
e eu sei o que esperam aqueles que, pela rua,
nos apertam a carne dos dedos.
A tua ignorância é um monte de leões, Stanton.
No dia em que o cancro te deu uma surra,
cuspiu em ti no dormitório onde morreram os hóspedes durante a epidemia
e abriu a sua quebrada rosa de vidros secos e mãos brandas
para salpicar de lodo as pupilas dos que navegam,
tu procuraste na erva a minha agonia,
a minha agonia com flores de terror,
enquanto o ácido cancro mudo que quer deitar-se contigo
pulverizava paisagens vermelhas pelos lençóis da amargura
e colocava sobre os caixões
pequenas plantas geladas de ácido bórico.
Stanton, vai para o mato com as tuas harpas judias,
vai, para que aprendas as palavras celestiais
que dormem nos troncos, nas nuvens, nas tartarugas,
nos cães que dormem, no chumbo, no vento,
nos lírios que não dormem, nas águas que não abundam,
para que aprendas, filho, o que o teu povo esquece.
Quando começar o tumulto da guerra,
deixarei um bocado de queijo ao teu cão no escritório.
Os teus dez anos serão as folhas
que voam da roupa dos mortos.
Dez rosas de débil enxofre
ao ombro da minha madrugada.
E eu, Stanton, eu somente, em esquecimento,
com as tuas caras murchas sobre a minha boca,
penetrarei repetidamente as verdes estátuas da Malária.



Federico García Lorca