As vozes dos galos madrugadores no silêncio da luz nascente incutem algum ânimo nos olhos tristes do mocito. Levanta-se do escano, empurra a porta empenada e caminha a pés descalços pelas ervagens altas do quintal empapado de chuva, com o grande capote arrastando aos calcanhares. A bengala encastoada de prata e o saquitel dos ossos lá estão junto do tanque, nas ervas, sob os ramos da macieira. Dum ramo leve voam dois pardais, um após outro, e o ramo fica a oscilar e a desprender gotas retidas. O mocito vê os pardais sumirem-se rapidamente no céu muito limpo e calmo, nos montes para além do rio. Atrás desses montes vigorosos desdobram-se montes menos nítidos e atrás destes outros ainda, finíssimos, quase apagados, neles se vendo indistintamente, a coroar a lonjura mais alta, os contornos minúsculos do santuário do Sameiro. Os olhos tristes do mocito demoram-se nesses longínquos e vagos contornos. Mas, como se de súbito recordasse algo insólito vislumbrado de um pouco antes, torna à cozinha, com o grande capote arrastando aos calcanhares nas ervas molhadas. Acerca-se do escano. E, sufocando um soluço, com uma lágrima de pura dor a correr pela face magra, estende a mão para a pedra negra, entre as cinzas da lareira e a chaminé, onde estão a navalha de barba e o pincel de ensaboar deixados ali na véspera - «bagagem de homem».


Altino do Tojal
o oráculo de jamais 
Amor mío: guárdame entonces en ti
en los torrentes más secretos
que tus ríos levantan
y cuando ya de nosotros
sólo que de algo como una orilla
tenme también en ti
guárdame en ti como la interrogación
de las aguas que se marchan
Y luego: cuando las grandes aves se
derrumben y las nubes nos indiquen
que la vida se nos fue entre los dedos
guárdame todavía en ti
en la brizna de aire que aún ocupe tu voz
dura y remota
como los cauces glaciares en que la primavera desciende.


Raúl Zurita 

conhecer pessoas novas

- Vamos - atalhou Imtaz -, já é tempo de me vestir. Esta noite, vou levar-te a Chawki. Tens de conhecer esse homem.
- Um sacana! - protestou Teymour.
- Os sacanas são o sal da terra - declarou Imtaz.


Albert Cossery
uma conjura de saltimbancos

estupidamente

Chawki sorria estupidamente, retorcendo o bigode com uns gestos febris que traíam o seu mau estar. Os seus tremores justificavam-se. Não se tocam em problemas tão explosivos como a evolução da humanidade sem sofrer alguns salpicos.


Albert Cossery
uma conjura de saltimbancos

basta

Viver não basta queremos sonhar
em jardins encantados florestas com árvores
que transformam serras mecânicas em rosas e pão

Andar não basta queremos pairar
sobre ruas em que tanques e porta-aviões
se desfazem em leite e mel

Comer não basta queremos beijar
gente bela basta que
seja gente.


Ulla Hahn
a sede entre os limites